De volta para o futuro: Novos rumos para a indústria Pós-Pandemia

Este texto está sendo escrito no momento do pico da pandemia causada pelo Novo Coronavírus (COVID-19), principalmente nas Américas.

O pico em vários países da Europa já foi atingido e ultrapassado. E antes deles, também na China, que foi o epicentro da crise. Ainda não se sabe se haverá um novo pico ou será possível um controle dessa possibilidade, em função de novos medicamentos, por exemplo. Muitos analistas em todas as áreas do conhecimento e atividades humanas estão se questionando ou são questionados sobre como será o futuro, após a pandemia.

As opiniões são diversas e vão desde a esperança de que haverá mudança radical de atitudes até a certeza de que quase nada mudará. Em geral, cada analista deixa claro que um dos fatores que afetarão as consequências é a duração da pandemia, principalmente nos aspectos econômicos. Essa variável de tempo é imprevisível e se trabalha com tendências, como na questão de se haverá outros picos ou não, se tratamentos médicos e vacinas estarão disponíveis, etc. Entretanto, os problemas enfrentados até o momento como consequência dessa pandemia já trouxeram uma questão importante: o que significa termos a China como “fábrica do mundo”?

O objetivo aqui não é demonizar a China ou tratar de teorias da conspiração. É analisar o fato concreto de a China ter se tornado a “fábrica do mundo” ou, pelo menos, o mais importante player. Isso não aconteceu de um dia para o outro nem por acaso. Também não foi por pressão política ou militar. Portanto, foi consensual entre todos os envolvidos, pelo menos até certo ponto.

O fato de Deng Xiaoping chegar ao poder em 1978 é considerado o marco inicial da industrialização chinesa. Um conjunto de fatores como investimentos estatais, mão de obra barata, poucas regulamentações, energia barata e ilimitada, água, falta de restrições ambientais, infraestrutura, facilidades para montar grandes estruturas de produção, planejamento centralizado, etc, criaram um ambiente favorável à atração de empresas com o objetivo de diminuir seus custos de produção. Esses custos eram mais elevados nos EUA e na Europa, principalmente devido a salários mais altos e forte regulação em todos os aspectos, resultado de uma evolução e aprendizado desde o início da revolução industrial.

Antes de a China ter sucesso nesse processo, já havia um movimento natural de montar parte da produção e serviços em outros países, com custos mais baixos. O Brasil foi um dos países que se beneficiaram desse processo nas décadas anteriores à ascensão chinesa. Mas os benefícios como salários, legislação e incentivos econômicos dados por esses países não eram tão grandes quanto os que seriam oferecidos posteriormente, na China. Portanto, a vantagem nos custos também era bem menor, o que justificava que apenas parte dos processos fossem transferidos para esses países. A forma de produzir nessa época era basicamente a forma desenvolvida nos EUA, que foi sendo replicada pelo mundo afora.

Mas tivemos nas últimas décadas do século passado um outro processo, que resultou na ascensão do Japão. Era uma conjunção de otimização administrativa, automação, redução de custos, alta produção e alta qualidade. Foi uma revolução, obrigando todas as indústrias a modificarem seus processos para seguir nessa linha. Mas mantinha, em termos gerais, os fatores como salários, regulação e custos de infraestrutura nas mesmas bases. E apesar do aumento do peso do Japão, as indústrias continuaram operando nos países de origem, incorporando esses novos elementos.

Quando a China entrou em cena, o quadro mudou radicalmente devido às vantagens incomparáveis oferecidas. O processo começou do zero. A China tinha permanecido durante muito tempo fora do circuito, fechada ao ocidente, devido à ideologia restritiva. Após essa abertura, e ao longo do tempo, a China foi construindo infraestrutura e atraindo cada vez mais empresas. Shenzen, que hoje é o “Vale do Silício” chinês, era no início desse processo uma vila de pescadores. E começou então o “Efeito Manada”. Se meu concorrente leva a sua produção para a China e passa a vender seu produto 50% mais barato que eu e com a mesma margem ou até maior, eu sou “obrigado” a ir também, querendo ou não, para não perder participação no mercado ou falir.

Ao longo dos anos, todos os segmentos foram sendo induzidos na mesma direção, o que resultou na situação que temos hoje. Esse processo teve como consequência uma redução geral de preços, ampliando muitos mercados consumidores. Mas também fechou muitas empresas nos países desenvolvidos e em desenvolvimento, que não conseguiram ir para a China ou acompanhar essa nova fase da industrialização.

Muitas regiões industriais do mundo, que viram suas indústrias fecharem ou serem transferidas para a China, entraram em decadência juntamente com a sua população. 

Nos países em desenvolvimento, a desindustrialização foi ainda maior. 

As indústrias foram para a China e levaram suas tecnologias e processos, dando acesso aos chineses a esse conhecimento. Aos poucos, eles começaram a criar também suas próprias empresas e vender seus produtos para o mundo a preços ainda mais baixos. Passando por acusações de cópia, pirataria, baixa qualidade, trabalho escravo, degradação do meio ambiente, dumping, o fato é que a China está agora estruturada, partindo para a competição com seus antigos parceiros e fazendo tentativas de dominar o mercado em vários segmentos.

Hoje, a China representa aproximadamente um quarto da produção mundial, enquanto a maioria dos principais países industrializados tiveram a sua participação reduzida ao longo do tempo, de acordo com o IEDI, “Entre 2005 e 2016, a participação chinesa no valor adicionado da indústria de transformação (VTI) mundial mais do que dobrou, passando de 11,66% para 24,36%. 

No caso das outras três potências industriais, houve recuo acentuado, especialmente nos EUA (de 20,27% para 15,99%) e no Japão (11,02% para 8,73%). Alemanha conseguiu preservar um pouco mais sua participação, mas ainda assim declinou de 7,29% para 6,29%.”:

Índia e Coréia do Sul tiveram um aumento na participação mas os demais países tiveram redução nesse período de onze anos. A participação do Brasil, que já era era muito pequena em 1995 (menos de 4%), foi na mesma direção até 2016, chegando a 1,84% , também conforme o IEDI:

Considerando o crescimento real acumulado do valor adicionado manufatureiro (VAM) desde 1980 até 2017, vemos uma disparidade entre a China e os demais países, conforme estudo do IEDI, “O caso chinês é único, pois a China aumentou o tamanho de seu parque industrial em mais de 40 vezes. A Coreia do Sul aumentou 17 vezes, Indonésia e Índia 12 vezes, Malásia e Irlanda 11 vezes.”:

Além da fabricação de produtos acabados, existe mais um fator que traz uma dependência ainda maior da China. E que normalmente não é visível. Existem algumas fábricas que foram abertas ou permaneceram nos países de origem. Mas os componentes, partes e acessórios usados na fabricação dos seus produtos são fabricados na China. 

Em muitos casos, como na indústria eletrônica, a proporção desses componentes chega a mais de 80% do produto. Ou seja, essas fábricas que estão hoje nesses países são, na prática, apenas montadoras finais. 

É o que acontece bastante no Brasil em geral e na Zona Franca de Manaus, em particular. Assim, mesmo quando os produtos são fabricados num país, esse país não tem a cadeia produtiva própria, ele também depende da China. Para completar essa dependência, a maioria das máquinas industriais, ferramentas e instrumentos que são usados para a fabricação dos produtos também são produzidos na China. Isso fecha o ciclo.

Até o final do século passado, pelo menos os países desenvolvidos tinham uma cadeia produtiva quase completa, produzindo os componentes e montando os produtos finais. 

Muitas vezes, as grandes indústrias eram verticalizadas, desde os componentes até o produto final. Ou, pelo menos, os fornecedores eram empresas variadas mas no mesmo país. Também existia os casos onde se utilizavam componentes e partes de vários países. Algumas vezes era até a mesma empresa, com fábricas nesses diversos países, enviando as várias partes para o país que fazia a montagem final. 

Uma situação comum, por exemplo, na indústria automobilística. Isso estava ligado às estratégias das empresas e a programas de governos, competindo para atrair empresas, modelo que também foi aplicado pelo Brasil.

As decisões de o que produzir, onde produzir e em que país, tinha a ver com as vantagens competitivas de cada um. 

Custo, logística, tecnologia, mão de obra, infraestrutura, situação política, tudo era considerado para tomar a decisão de investimento e montar uma fábrica. E era comum haver fases, onde era mais vantajoso comprar de um país, depois era mais vantajoso comprar de outro, depois voltava a comprar do mesmo ou partia para um terceiro. 

Isso fazia com que a industrialização fosse distribuída entre muitos países, tendo como indutores os países desenvolvidos e com a participação dos países em desenvolvimento, que receberam esse nome justamente porque tinham programas e políticas de industrialização e criação de serviços associados a essa industrialização. Muitos desses países também eram produtores de commodities e tentavam se tornar industrializados, para ter produtos com maior valor agregado. Essa estratégia trazia um maior desenvolvimento econômico e social a esses países.

Um outro fator importante e estratégico que estava associado a essa produção em muitos países era a questão do plano de contingência.

Se algum país, por questões financeiras, políticas, meteorológicas ou geofísicas tivesse alguma ocorrência que impedisse o funcionamento normal dessas fábricas, instalações ou serviços, a empresa poderia fazer novos contratos emergenciais com empresas de outros países para não interromper a produção. Ou poderia ter previamente esses vários contratos de fornecimento e já estar operando dessa forma. E caso houvesse alguma necessidade nova, era possível desenvolver com um fornecedor em qualquer um desses países. 

Na China, qualquer alteração ou nova necessidade entra em uma fila, onde estão todos os seus concorrentes. Alguns, muito maiores do que você. Com essa produção concentrada na China, não existe opção e qualquer um desses problemas se torna uma barreira, que tem o poder de interromper ou retardar a produção.

Agora temos toda essa situação agravada por causa do COVID-19. 

A falta de um plano de contingência era um problema que já estava no horizonte. Era em parte mitigado, porque na China surgiram diversos fornecedores para os mesmos componentes e produtos. Mas é mais do mesmo, todos na China, trabalhando da mesma forma, muitos deles sem qualidade. 

Esta situação faz com que os clientes dos demais países sejam obrigados a ter serviços de verificação da qualidade, seja na própria China para evitar o embarque de produtos defeituosos, seja na recepção, já no próprio país, para evitar que esses produtos entrem na linha de produção ou sejam entregues ao cliente com defeitos. Ao contrário do processo japonês de garantia da qualidade, onde a qualidade é uma preocupação presente em todo o processo.

O problema de manter a qualidade do produto num contexto de produção é crítico. Porque a falta de um parafuso de US$ 1 pode impedir a entrega de um avião de US$ 100 milhões. Muitas empresas não conseguem ter essa estrutura. E no caso atual, estamos enfrentando uma pandemia. 

A indústria brasileira está sofrendo grande restrição, por exemplo no ramo eletrônico, conforme esse artigo na Defesanet, “24% das fábricas do setor eletrônico operam em paralisação” e “Aproximadamente 70% das empresas desse ramo afirmaram que tiveram dificuldades no abastecimento de materiais, componentes e insumos oriundos da China”.

Devido a todo esse processo de produção ser na China, estamos com restrição de acesso a equipamentos fundamentais, como aparelhos respiradores. Ficamos na dependência da China para fabricar e entregar, num momento em que muitos países estão solicitando o mesmo produto aos mesmos poucos fabricantes, a milhares de quilômetros de distância e somente acessíveis por mar para vários clientes. Ou por avião, o que representa um custo adicional. Essa dificuldade logística, em tempos normais, geralmente é superada com planejamento. 

Entre a compra e a chegada do produto, se passam vários meses. Receber produtos defeituosos em condições normais representa prejuízo financeiro, atrasos, clientes frustrados e retrabalho. Mas em tempos de emergência médica, a questão da qualidade se torna um problema explícito, porque não se tem tempo para fazer todos os controles que eliminam os produtos que saíram imperfeitos da linha de produção. 

Temos tido vários lotes de EPI recusados em vários países do mundo, devido à falta de qualidade e defeitos. Num contexto em que não temos reposição imediata, médicos ficarão desprotegidos e em risco de vida.

E apesar da crise gerada pelo COVID-19, temos muitas empresas funcionando no mundo que precisam dos componentes e produtos da China e ela, como teve que fazer o processo de isolamento social, derrubou a produção durante esse período, ocasionando falta de insumos e comprometendo a produção. Com a defasagem entre oferta e demanda, os custos de aquisição e os prazos de entrega também aumentaram. Mais uma vez, as consequências da falta de um plano de contingência ficaram explícitas.

Tentando visualizar como será o futuro após a pandemia. Assim como estão fazendo os demais analistas, é apenas um exercício de futurologia. Na área da indústria, deveria ser “de volta para o futuro”. A solução deveria passar pela volta da condição que tínhamos no passado, para avançar em direção ao futuro.

Voltar para quando tínhamos planos de contingência, várias empresas em vários países produzindo as mesmas coisas. Cada um tentando fazer um produto melhor e mais barato que o outro. 

Evidentemente, não seria tudo idêntico ao passado. Faríamos algumas adaptações, alterações e melhorias em relação a esse passado. 

Teríamos uma estrutura de produção utilizando as novas tecnologias, a Industria 4.0, IoT, AI, Big Data. Não seria uma volta da indústria da noite para o dia. Seria um processo em etapas, conforme um planejamento que levaria em conta a necessidade de investimento e o custo. Certamente não seria tão barato quanto continuar tudo na China.

Mas essa falta de contingência tem um custo oculto, que estamos vendo e contabilizando agora. E um custo que envolve vidas humanas. Um custo que envolve a falta de progresso dos países e a concentração de recursos e poder em um único país, que se tornou nesse processo a segunda economia do mundo. E tem a perspectiva de se tornar a primeira. 

Existem aqueles que alegam que indústria é o passado e serviços é o futuro. Uma coisa não impede a outra, existe até uma sinergia. Também não é um movimento contra a globalização. 

Os empresários e os governos têm agora a justificativa e a oportunidade de considerar essa alternativa. O custo seria compensado por mais segurança no fornecimento, pelo maior controle e qualidade da produção, a possibilidade dessa produção se dar em empresas mais próximas, facilitando a logística. 

Alterando a lógica da produção, de produzir grandes quantidades de um mesmo item para reduzir o custo de produção e passando a produzir menores quantidades de muitos itens, o que é possível fazer sem impactar tanto o custo usando as novas tecnologias. Inclusive dando um passo além, na produção de itens customizados pelos clientes.

A automação industrial não é uma tecnologia nova. Há várias décadas já era possível uma fábrica 100% automatizada. 

A novidade é que a automação hoje está ficando mais barata que o operário humano de baixo custo. E com ganhos de qualidade. A própria China investe muito em automação. 

Não se trata de trazer o desemprego para os países que se reindustrializar, com os altos índices de automação da Indústria 4.0. Esses empregos já tinham ido embora e não voltarão mais. Essa reindustrialização vai gerar nesses países novas oportunidades de empregos melhores, de instalação, manutenção, serviços, infraestrutura e novos empreendimentos, tracionados pelo incremento da atividade econômica em geral. Da mesma forma que aconteceu na China, guardadas as proporções. 

Mesmo nesse momento de incertezas devido ao COVID-19, o Japão já anunciou a sua disposição de sair da China e iniciar a reindustrialização japonesa, investindo US$ 2 bilhões. 

A coreana Sansung anunciou que vai sair da China e investir em países próximos, como Índia, Vietnã e Tailândia . É uma alternativa a mais, para diversificar o processo de produção em locais economicamente atraentes e conseguir um plano de contingência. 

São países e empresas que detêm a tecnologia, capital e tem mais facilidade para fazer essa transição. Mas qualquer país ou empresa pode fazer o mesmo, se houver interesse e empenho. 

No caso do Brasil é uma grande oportunidade, seria também uma volta a uma política que agora pode dar certo, em novos termos, diferente do que ocorreu no passado. Agora temos novas tecnologias, novo espírito empreendedor, novas empresas e start-ups unicórnios. Um ambiente diferente.

Não se trata, como já foi mencionado, de demonizar a China. Nesse novo cenário, ela continua a ter o seu lugar como uma fornecedora de tudo o que ela já faz. 

Hoje a China já tem tecnologia própria, muitos recursos financeiros e tem mostrado interesse em dominar vários mercados. Mas deverá ocorrer uma revisão de estratégias dela e dos demais países nesse novo mundo, reindustrializado e com mais opções. Novos termos de parcerias, de contratos e de competição com novos players serão uma consequência natural.

Referências:

Análise IEDI Indústria Mundial

Carta IEDI Edição 940:

Redução dos embarques da China para o Brasil e seus impactos:

Japão quer retirar suas empresas da China, diz revista

Samsung fecha fábricas e encerra operações na China

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